Aquecimento global ameaça para os vizinhos Regiões de clima mais quente como a Austrália e o Chile são mais afetadas com o aumento das temperaturas. Uma das conseqüências são vinhos de teor alcoólico mais elevado
POR ARTHUR P. DE AZEVEDO
No momento em que sentimos na pele, literalmente, os efeitos do intenso calor do verão brasileiro, fica difícil nos esquecermos de tudo o que tem sido dito sobre os efeitos do aquecimento global. Será que este temido efeito já chegou? E se chegou, como afetará nossas vidas? Calma, ainda há tempo para que as medidas propostas (e, diga-se de passagem, ainda não plenamente aceitas e/ou implementadas) possam nos livrar de tal pesadelo num futuro não muito distante. Claro que, se não tivermos consciência do dano que determinadas atitudes podem causar ao ecossistema, as gerações futuras serão seriamente afetadas. No momento, vamos nos deter sobre o que está acontecendo com o clima em determinadas regiões do planeta e analisar qual está sendo o impacto das mudanças, ainda que muito sutis, sobre o cultivo das uvas, matéria-prima indispensável para a produção de vinhos. Recentemente esteve no Brasil, trazido pela Stellium Design (leia-se Cláudia Fusatto) e por Ariel Perez, o especialista Pancho Campo, uma das maiores autoridades no assunto e integrante da equipe de Al Gore. Em palestra na Associação Brasileira de Sommeliers-SP, Pancho discorreu sobre como as alterações climáticas estão alterando o panorama vitivinícola mundial. As causas do aquecimento global estão sendo amplamente divulgadas, sendo a mais importante delas a emissão descontrolada de gases para a atmosfera, criando o chamado “efeito estufa”. Pancho disse que a temperatura vem aumentando um terço de grau Celsius a cada 10 anos, o que representa um aumento de 3ºC nos próximos 100 anos, e essa elevação tem acontecido mais rapidamente do que a ocorrida na Terra nos últimos 10 mil anos. Esta velocidade impede a adaptação de várias
espécies e ecossistemas.
Para a indústria do vinho, segundo Pancho, as mudanças já estão sendo sentidas, de diferentes maneiras. A primeira, mais óbvia, é a elevação de temperatura em diversas regiões vinícolas, mudando a característica dos vinhos de forma sensível. Depois, o dióxido de carbono (CO2) tem efeito fertilizante sobre as plantações, aumentando a produtividade das videiras (e conseqüentemente diminuindo a qualidade das uvas), e por fim, há o problema da disponibilidade de água, que diminui com o calor.
A elevação de temperatura em diversas regiões vinícolas tem mudado a característica dos vinhos de forma sensível
Em algumas regiões mais frias, onde as uvas sempre tiveram dificuldade para amadurecer, o aumento de temperatura está sendo até benéfico, como nos contou Aubert de Villaine, do Romanée-Conti, em sua recente visita ao Brasil. De fato, na Borgonha, um pouco mais de calor foi muito bem-vindo e a exigente Pinot Noir tem conseguido amadurecer com perfeição, o que se reflete diretamente na qualidade dos vinhos. Entretanto, em regiões onde o clima já é muito quente, como acontece em determinadas áreas da Austrália ou do Chile, a situação se torna mais grave, pois, com a tendência atual de se colher as uvas tintas mais tardiamente para esperar o amadurecimento dos taninos, há um acúmulo maior de açúcar, o que faz com que o teor de álcool dos vinhos aumente muito acima do razoável.
As soluções a curto prazo são procurar novas áreas de plantio e também desenvolver novos clones e porta-enxertos, visando a uma adaptação às novas condições climáticas. A longo prazo, no entanto, soluções mais duradouras terão de ser buscadas e isso depende basicamente da boa vontade de governos e da colaboração de todos.
 |
ARTHUR P. DE AZEVEDO é jornalista especializado em vinhos, presidente da Associação Brasileira de Sommeliers, diretor-editor da revista Wine Style, palestrante e consultor. www.artwine.com.br |
|