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Home: Revista: Café Março/2008

naxícara
Ernesto Illy
Isabela Raposeiras

WEBERSON SANTIAGOLembro-me vividamente do momento em que apertei sua desproporcionalmente grande mão direita. Ernesto Illy tinha acabado de terminar uma palestra na conferência anual de cafés Especiais da SCAE, a associação de cafés especiais da Europa, e as pessoas deixavam a sala enxugando as lágrimas. Eu, idem. Para testar a força do meu coração, um amigo me apresentou ao grande homem. Sou exatamente o oposto do que as pessoas chamam de tímida, mas diante do maior mestre do mundo do café e do meu mundo e história cafeeira, senti meu cérebro implodir, as palavras já não estavam acessíveis e só me restou olhar para ele com imensa gratidão e profunda admiração.

"Só se faz café bem se for com amor" foram algumas das carinhosas palavras deste químico sobre o preparo de cafés de qualidade. Como não ser grata a um homem que possibilitou a pacífica convivência entre poesia e ciência, exatidão e coração? Esta fluidez de mundos aparentemente tão dissonantes só é possível a poucos gênios que mostram que a arte só pode ser verdadeiramente expressa a partir da incorporação da técnica.

estou bebendo
O Vitale, um café encorpado e de acidez acentuada, elaborado a partir de um blend com cafés descascado e natural, de duas fazendas, uma no sul de Minas Gerais e outra no interior paulista (R$ 24, a embalagem de 500 gramas).

Sua família quebrou muitos paradigmas na história do café. Seu pai criou a bomba de água utilizada em 99% dos equipamentos de espresso atualmente. Ele, Ernesto, que faleceu no início de fevereiro, continuou o pioneirismo dizendo para o mundo que podemos fazer maravilhosos espressos usando apenas grãos da espécie arábica (tradicionalmente, misturavam-se arábicas e robustas nos blends). Ele também quis que as pessoas tomassem bons espressos em casa e criou o conceito de 'easyserving- espresso' ou seja, os saches e cápsulas tão presentes em nosso dia-a-dia. Ele veio ao Brasil anualmente mostrar aos produtores que valia a pena investir em qualidade na lavoura.

Obrigada, Ernesto Illy, pela profundidade de sua dedicação ao produto que transformou a minha vida e a de tantos outros especialistas em café. Obrigada por nos mostrar que o par ciência e amor é o único caminho para inesquecíveis xícaras de café. Caro mestre, você continuará vivendo em cada xícara meticulosa e amorosamente preparada nas cafeterias do mundo.

Isabela Raposeiras, barista, é proprietária da Academia de Barismo, ministra cursos e dá consultorias na área. isabela-colab@revistamenu.com.br



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