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Home: Revista: Reportagens Agosto/2008

O arroz do imperador
José Francisco Ruzene é o primeiro agricultor brasileiro a apostar no grão de cor preta e sabor que lembra a castanha

por Suzana Barelli foto Murillo Constantino/ag. Istoé

De iguaria chinesa, reservada apenas aos nobres e com fama de afrodisíaco, o arroz preto ganha sua versão brasileira

Na história da gastronomia, o arroz "proibido" é uma iguaria chinesa, saboreada pelos imperadores há 4 mil anos e com poderes afrodisíacos. Mas este arroz de cor preta, t

De iguaria chinesa, reservada apenas aos nobres e com fama de afrodisíaco, o arroz preto ganha sua versão brasileira

Na história da gastronomia, o arroz “proibido” é uma iguaria chinesa, saboreada pelos imperadores há 4 mil anos e com poderes afrodisíacos. Mas este arroz de cor preta, textura macia e gosto que lembra o da castanha,também quer entrar para a história da gastronomia brasileira, agora no século 21. Não mais como um produto vetado aos súditos, mas como um grão de qualidade, nutritivo e voltado para o mercado gourmet. Ao menos este é o sonho do rizicultor José Francisco Ruzene, mais conhecido como “Chicão”, o primeiro agricultor a cultivar o grão no Brasil.


Esta história começa na década de 1990, quando o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) decidiu apostar nesse grão dentro de um projeto de melhoramento genético dos arrozes especiais. Nascia aí o arroz preto nacional, batizado de IAC-600. Ruzene, então um produtor de arroz branco, assim como seu pai e seu avô, que migrou da Itália, soube do projeto e decidiu apostar na nova lavoura. “As pessoas falavam que era um produto gourmet, mas eu nunca tinha ouvido esta palavra, não sabia o que significava”, conta.

Para descobrir este significado, o agricultor de Pindamonhangaba, interior de São Paulo, foi até a cidade vizinha de Campos do Jordão conhecer os restaurantes. Gostou do que viu e decidiu apostar no arroz gourmet. Ele plantou o grão em dois hectares de um terreno muito irrigado, quase uma várzea. A primeira safra foi beneficiada no final de 2005. E, com o produto numa embalagem especial, Ruzene partiu para a capital paulista para mostrá-lo para os grandes chefs.

Deu sorte. Um dos primeiros a se encantar com o grão foi Alex Atala, do premiado restaurante D.O.M., que tem uma receita de salada de arroz preto com lulas, algas e tucupi, entre outras criações. O arroz conquista os chefs pelo seu sabor e consistência, mas é também mais protéico e menos calórico do que as variedades branca e integral. “Ele é muito rico em fibras”, diz Alessandro Segato, o chef da La Risotteria, convidado para criar as receitas que ilustram esta reportagem.

O sucesso do outrora proibido arroz mudou a vida de Ruzene. Atualmente, ele arrenda 100 hectares de uma fazenda para cultivá-lo. E teve de abandonar o plantio do arroz branco depois de 25 anos de agricultura. “Todas as máquinas devem estar adaptadas ao preto e não dá para plantar nenhuma outra espécie”, conta. Agora com as mãos menos calejadas – ele passa mais tempo nas visitas aos restaurantes do que no campo –, Ruzene também aprendeu o significado da palavra qualidade. Ele toma mais cuidado na colheita para o grão não quebrar. Só não se conforma com a redução do plantio. “Aprendi que o que é bom para a culinária é ruim para o agricultor”, reclama. O arroz branco rende 10 toneladas por hectare e o preto, entre 2 e 3 toneladas por hectare. O baixo rendimento compensa pelo preço – uma embalagem de 250 gramas custa ao redor de R$ 8 – tanto que Ruzene prepara novos lançamentos dos arrozes especiais. Em dezembro, ele deve apresentar ao mercado o arbóreo nacional, também desenvolvido pelo IAC, e uma espécie de arroz vermelho. Seu sonho, agora, é exportar o arroz preto e, para isso, ele acaba de se matricular num curso de inglês.

Risoto de arroz negro com passito de Pantelleria
por Alessandro Segato

fotos Karina Burigo/ag. Istoé
José Francisco Ruzene, o “Chicão”, e o seu arroz preto

4 xícaras (chá) de arroz negro (350 g)
70 g de queijo de cabra fresco
2 colheres (sopa) de azeite extravirgem
4 colheres (sopa) de manteiga
4 colheres (sopa) de parmesão
Grana Padano ralado
6 xícaras (chá) ou 1 1/4 litro de caldo de carne
1 colher (sopa) de cebola picada
1 1/2 xícara (chá) de vinho Passito de Pantelleria (ou outro vinho do sobremesa)
sal e pimenta branca a gosto

risoto em uma panela, aqueça o azeite extravirgem e uma colher de sopa de manteiga e doure a cebola com 3/4 do gengibre. Adicione o arroz e deixe refogar por alguns minutos. Junte o vinho e deixe evaporar em fogo alto. Junte aos poucos o caldo de carne quase fervente.Mexa de vez em quando por cerca de 16 a 17 minutos. Quando este estiver “al dente” (a dois minutos de terminar o cozimento), retire do fogo, junte o restante da manteiga, o parmesão e misture

para servir em pratos individuais, coloque o risoto e, ao lado, disponha o queijo de cabra e o gengibre

dica do chef o ponto certo de qualquer risoto é quando este atinge a cremosidade ideal. Isso se chama “all’onda” e é obtido durante a finalização ao acrescentar a manteiga e o queijo parmesão.

rendimento 4 porções
preparo 35 minutos execução média

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