Feito em casa Vanessa Barone
Durante grande parte da minha infância, docinhos e vestidos de festa eram coisas de se fazer em casa. Era das panelas da minha avó Leda e da máquina de costura da minha tia Isabel que saíam os melhores quitutes e as roupas mais bonitas que eu já tinha visto. Nessa época, nada era fast - nem fashion nem food - e as coisas demandavam um tempo. E era nesse tempo de preparo e de curtição que residia toda a graça.
Para os vestidos, o prazo mínimo para a confecção era de um mês. A primeira etapa era a busca por um modelo adequado, nas páginas das revistas de moda. Com o modelo definido, era hora de ir com a minha mãe comprar o tecido, outra aventura excitante, em meio a rolos e mais rolos de pano, que despregavam um forte cheiro de algodão. Depois, era esperar pelas provas e ajustes até ter o vestido pronto, feito exatamente com as minhas medidas. Nunca mais outra roupa me vestiu tão bem.
Nas vésperas da festa, a cozinha da minha avó já estava arrumada com os ingredientes para o seu doce de amêndoas - famoso na vizinhança. A preparação não raramente entrava pela madrugada. Começava com o cozimento das amêndoas, para extrair a casca. Depois, elas eram batidas no liquidificador.Mais tarde, eram misturadas a uma calda de açúcar e a várias gemas. O cozimento perfumava a casa e atraía a criançada para a beira do fogão, na esperança de roubar uma colherada do doce ainda quente. Se fosse o meu aniversário, eu ganhava o direito de ter uma bandeja de doces só minha, que eu costumava esconder no armário, para comer depois da festa. Dessa orgia gastronômica, não me restava nem um quilo a mais - só uma sensação de felicidade que durava muito tempo depois de todo o doce devorado.
Vanessa Barone é jornalista especializada em moda. [vanessa.colab@revistamenu.com.br] |