Bons ventos do Sul Denominação de Origem e lançamento de brancos premium são algumas das novidades das vinícolas da Serra Gaúcha.
por Suzana Barelli, de Bento Gonçalves
As vinícolas Casa Valduga, Miolo e Salton são três referências em vinhos finos brasileiros, seja pelo volume de produção, seja pela qualidade de seus rótulos premium. E todas as três estão apostando, agora, em vinhos brancos de gama superior, depois do sucesso dos espumantes da Serra Gaúcha. A Valduga saiu na frente e lançou, no final do ano passado, o Gran Reserva 2008, por R$ 48.
Neste mês de abril, foi a vez da Salton colocar no mercado o Virtude, também da safra de 2008. E a Miolo anuncia que será um branco, o Cuvée Giuseppe, o seu primeiro rótulo com Denominação de Origem (DO), título aprovado para ser utilizado a partir da safra de 2009 nos vinhos elaborados apenas com uvas provenientes da região do Vale dos Vinhedos.
Todos os três vinhos são elaborados apenas com a uva Chardonnay, a cepa branca originária da Borgonha francesa que mais se adapta a solos e climas diferentes. Miolo e Valduga optaram pela uva do próprio Vale dos Vinhedos e poderão divulgá-lo como um vinho com DO. Com um selo estampado no rótulo, a denominação garante a procedência das uvas e as regras básicas de vinificação, mas, por si só, não é sinônimo de qualidade.
A Salton, por sua vez, aposta na Chardonnay plantada em Bagé, no sul do Estado gaúcho, que fermentou em barricas e ainda ficou seis meses em contato com as leveduras antes de ser engarrafado, tudo para ganhar maior complexidade. "Chegou a hora de investirmos em um branco premium", afirma Lucindo Copat, diretor de enologia da Salton. Com preço de mercado de R$ 50, a Salton deve posicionar o seu rótulo branco na mesma faixa do Talento e do Desejo, seus dois tintos premium.
Juarez Valduga, na cave de espumantes de sua vinícola; a sala de guarda de vinhos e a de barricas da Pizzato, que faz um Chardonnay sem madeira
Adriano Miolo, enólogo e diretor-técnico da Miolo Wine Group, esperou a definição da DO para apostar no rótulo premium branco. A partir desta safra, seu rótulo Reserva será elaborado apenas com as uvas de vinhas da própria vinícola no Vale dos Vinhedos, vai fermentar em barricas novas de carvalho e receber uma finalização mais cuidadosa.
"Acreditamos que já há espaço para um rótulo branco de qualidade no Brasil, e a Chardonnay é a variedade que melhor se adapta à região", afirma Adriano. No portfólio da vinícola, até agora eram posicionados como top de linha apenas os tintos, como o Lote 43, e o espumante Miolo Terroir.
O retorno aos brancos (no século passado, o Brasil produzia mais brancos do que tintos, mas essa porcentagem se inverteu nas últimas décadas) merece atenção crescente de várias vinícolas. Elas passam a apostar em variedades brancas que amadurecem mais cedo do que as tintas e são, assim, colhidas antes do período de chuvas - em várias safras, o período das águas coincide com a colheita das cepas tintas, o que resulta em vinhos mais ligeiros e com menor concentração de aromas e sabores.
A pequena Pizzato, por exemplo, faz sucesso com um Chardonnay de bom frescor e que não passa por barricas de carvalho, e na edição de 2008 da Expovinis, a maior feira de vinhos da América Latina, o branco da vinícola gaúcha Cordilheira de Sant´Ana, safra 2005, foi eleito o melhor Chardonnay do evento.
Os brancos brasileiros também encontram eco nos especialistas internacionais. Em fevereiro passado, o Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho) levou uma dezena de especialistas europeus, entre jornalistas e compradores de vinhos, para conhecer a Serra Gaúcha e visitar a Fenavinho, importante feira do setor realizada em Bento Gonçalves. E, após uma semana de degustação e visita às vinícolas, o grupo foi unânime em apontar para os brancos.
"O Brasil deve explorar seus vinhos frutados e com bom frescor. E deve fugir dos vinhos com muita madeira (que envelhecem em barris de carvalho)", sugere Oz Clark, um dos mais renomados jornalistas de vinho da Inglaterra. Outra sugestão é apostar nos espumantes do estilo Moscatel, que são menos doces e mais alcoólicos do que o Asti italiano e teriam demanda no mercado europeu. O conselho está dado.
Valduga e Salton, dois dos novos Chardonnays da Serra Gaúcha
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