A modernização de um clássico português Como a atual geração de herdeiros da casa José Maria da Fonseca renovou o Periquita, a mais popular marca de Portugal, com novos vinhos, rótulos e garrafas
por Luciano Suassuna, de Vila Nogueira de Azeitão (Portugal)
 |
Colheita em vinhedos da uva Castelão |
No dia 31 de maio, cerca de 120 convidados de todo o mundo irão se reunir nesta pequena vila da Serra da Arrábida, a meia hora de carro de Lisboa. Paramentados com capas e chapéus, e uma tomboladeira (pequena concha de metal usada para degustar vinho, conhecida no Brasil pelo nome francês de taste-vin) pendurada no pescoço, entrarão de maneira solene na imensa Adega da Mata, repleta de grandes barris de mogno. Em seguida, sentarão na compridíssima mesa montada especialmente para o 17º jantar anual da Confraria do Periquita. São gourmets, donos de restaurantes, jornalistas especializados, distribuidores de vinho, importadores e celebridades. Fafá de Belém já passou por aqui. Hebe Camargo também.
Criada em 1993, para celebrar o aniversário de nascimento de José Maria da Fonseca, que há 175 anos fundou o que hoje é a mais antiga empresa de vinho de mesa em atividade em Portugal, a confraria fornece um verniz de nobreza ao famoso tinto do país. “É um evento muito divertido”, diz a gerente de enoturismo da JMF, Sofia Soares Franco, 27 anos, integrante da sétima geração da família. Produzido pela primeira vez em 1850, o Periquita festeja 159 anos de vida na condição de marca mais exportada dos portugueses e também de rótulo europeu mais consumido pelos brasileiros. A cada ano, cinco milhões de garrafas são compradas em quase 30 países, do Japão ao Canadá.
O verniz de nobreza que permeia a confraria atende a uma demanda do marketing, mas o que dá força ao Periquita é a enorme popularidade. É um sucesso duradouro porque, em cada fase de sua história, o vinho soube vencer os desafios da época. Para começar do começo: quando se mudou do Ribatejo para o Azeitão, José Maria da Fonseca levou consigo mudas da uva Castelão que foram plantadas num pedaço de suas terras chamado Cova da Periquita. Na nova região, esta casta atendeu a dois requisitos fundamentais para a segunda metade do século 19: era uma planta resistente e que dava frutos em abundância.
 |
Garrafa do século 19, os modernos tanques de fermentação na vinícola nova e as barricas da Adega da Mata |
Quando a industrialização chegou às vinícolas, José Maria da Fonseca se tornou um pioneiro. O Periquita, que era engarrafado apenas de maneira artesanal estreou uma linha de produção. Até então, os vinhos eram vendidos a granel, carregados em pequenos barris ou mais comumente em bornais (bolsas de couro), duas embalagens que comprometiam a durabilidade e alteravam o sabor. Em 1880, ele comprou uma máquina, hoje exposta no museu da família, com capacidade para 240 garrafas por hora. Apenas como comparação, a atual linha de engarrafamento produz a uma velocidade de 30 mil garrafas por hora. Na mesma época, criou o Moscatel de Setúbal, um vinho de sobremesa que melhora com a oxidação (leia quadro).
O fato é que as garrafas garantiam a qualidade no transporte a bordo das caravelas e navios a vapor, e o Periquita viajou o mundo. Começou, então, a ser exportado para o Brasil. Com a fama estabelecida, veio o maior de todos os desafios. Na virada para o século 20, uma praga oriunda dos Estados Unidos, a filoxera, dizimou os vinhedos europeus. Mas a Castelão plantada no Azeitão sofreu poucos danos. Ou seja, quando a produção nacional despencou e a fraude tomou conta da indústria vinícola, José Maria da Fonseca tinha um tinto de qualidade para entregar aos consumidores. O Periquita conquistou Portugal.
O tinto da JMF ficou tão popular que o rótulo passou a se confundir com a uva Castelão. Nascia assim um daqueles raros casos em que a marca vira sinônimo do produto, da mesma forma como Gillette ganhou o significado de lâmina de barbear. Nos anos 1980, o preço desse sucesso foi cobrado num histórico processo na Justiça de Portugal. Como Periquita havia se tornado sinônimo da Castelão, vários produtores começaram a usar o nome comercial da José Maria da Fonseca para designar os vinhos que faziam com aquela uva. A empresa contratou um dos mais renomados advogados da área de marcas e patentes, Jorge Sampaio, que depois se tornou presidente de Portugal. No chamado “processo Periquita”, ele conseguiu garantir a propriedade do nome comercial para a José Maria da Fonseca – e hoje é legalmente proibido chamar a Castelão por esse nome.
O maior patrimônio da empresa, a marca Periquita, estava a salvo do plágio. Era hora de a sexta geração da família promover sua revolução. A mais importante delas foi a nova adega. Ela está localizada a menos de 15 minutos de caminhada da sede antiga, que recebe 30 mil visitantes por ano. Mas vai aí uma curiosidade: como a nova fica à beira da estrada, só se pode passar de uma a outra de carro – em Portugal, é proibido caminhar pelo acostamento de uma rodovia. Com 400 cubas e capacidade para produzir 6,4 milhões de litros, a nova adega tem uma sala de controle que mais parece uma torre de aeroporto. Um processo integralmente automatizado exige a presença de apenas 14 pessoas. Mesmo a colheita passou a ser mecanizada. “O que a máquina faz num dia, 60 mulheres precisavam de três dias”, compara Sofia Soares Franco.
 |
 |
A adega Torna Viagem (no alto, à esq.), a herdeira Sofia Soares Franco e o encontro da Confraria do Periquita, que já reuniu o chef Paulo Martins, a cantora Fafá de Belém e o enólogo Domingos Soares Franco. Abaixo, à esq. a fachada da vinícola antiga |
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >> |