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A Gamay brasileira Com a expertise de Henry Marionnet, o papa desta uva francesa, famosa por seus vinhos frutados, a vinícola Miolo reformula seu varietal
por Beatriz Marques, do Rio de Janeiro
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Adriano Miolo (à esq.) ao lado do produtor Henri Marionnet
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O produtor Henry Marionnet, considerado um dos maiores especialistas da uva Gamay, não imaginava que voltaria a trabalhar com vinhos brasileiros. Trinta anos atrás, ele desembarcou pela primeira vez por aqui, à procura de terras para um projeto vinícola. Comprou 25 hectares, na região da Campanha gaúcha, no sul do Estado. Lá plantou Cabernet Sauvignon, Merlot e Sauvignon Blanc. O projeto, no entanto, não vingou, pois seus sócios norteamericanos desistiram de erguer a prometida vinícola. Assim, ele se surpreendeu quando foi convidado pela vinícola Miolo, uma das poucas a ter Gamay plantada em seus vinhedos, a dar consultoria para este vinho.
A Gamay é a uva dos vinhos Beaujolais, inclusive do festivo Beaujolais Nouveau, com seus vinhedos próximos à Borgonha. Mas foi fora de sua região emblemática que a Gamay cativou Marionnet e lhe trouxe fama - até o crítico norte-americano Robert Parker já elogiou os seus vinhos. Marionnet decidiu plantá-la em sua vinícola, a Domaine de La Charmoise, em Touraine, no vale do Loire. Para o Gamway brasileiro, ele aposta no ar festivo do vinho, com muita fruta, leveza e refrescância, como conta nesta entrevista.
Como aconteceu a parceria com a Miolo?
Conheci o Adriano Miolo por meio de um amigo comum, o Winfried de Bernard du Breil, que faz um trabalho no Chile com a vinícola. Quando Winfried soube que a Miolo tinha Gamay, logo pensou em mim. Fomos apresentados no ano passado e estamos trabalhando desde outubro. A Miolo vai importar um dos meus vinhos, o Le Cépages Oubliet, para o Brasil, e eu levarei o Gamay à Europa.
Por que resolveu apostar na Gamay no Brasil?
Primeiro, eu fiquei surpreso em saber que havia Gamay por aqui. Fora da França, só havia visto na Suíça e na Califórnia. Com a vinificação ideal, a Gamay se torna um vinho bastante frutado e leve, indicado para o consumo dos brasileiros.
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A variedade Gamay, em vinhedo francês
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Quais mudanças o sr. sugeriu à Miolo?
Primeiro mudar a plantação do vale dos Vinhedos para a Campanha. O solo mais arenoso da Campanha transfere fineza ao Gamay. Seu clima é mais seco do que no vale, e a umidade pode facilitar a botrítis, algo ruim para a Gamay. Na Campanha, ainda, a temperatura mais baixa durante a noite favorece o amadurecimento da uva. A vinificação também mudou. Antes, a uva era desengaçada e colocada no tanque. Agora, fazemos a maceração carbônica: a uva se mantém intacta por uma semana, quando a fermentação já se inicia dentro da uva. Isso resulta em um vinho mais frutado. Depois de extraído seu suco, ele tem pouco contato com a casca, por isso seu tanino é bastante leve. Assim fica um vinho redondo.
A vocação do solo brasileiro é para o espumante. O sr. vê um espumante com Gamay?
Nunca! Seria um crime. Existe uma boa uva para elaborar vinhos de mescla com a Gamay? Não. Ela é muito diferente das demais uvas. Tem características únicas, que se perdem numa assemblagem. A Gamay não pode se casar com ninguém!
O sr. tem notícias de vinhedos da Gamay na Suíça e Califórnia, além da França. Por que esta uva é tão pouco explorada no resto do mundo?
A Gamay resulta em um vinho típico francês, de celebração, que costuma ser consumido em grandes quantidades. Talvez, por ser tão arraigado à nossa cultura, não tenha se expandido para outras nações.
Por que o sr. preferiu plantar a Gamay no Loire e não em Beaujolais?
A razão é simples. Eu moro no Loire e conheço seu terroir. E eu amo a Gamay. Ela proporciona um vinho prazeroso, frutado, que traz felicidade à taça.
O que acha do marketing do Beaujolais Nouveau?
Foi uma ótima ideia 40 anos atrás. Virou um vinho conhecido no mundo todo. Até existe corrida de carros para ver qual restaurante recebe primeiro o Beaujolais. Agora já não é a mesma coisa. A qualidade do vinho caiu. É simpático participar da festa, mas é algo que saturou.
Como é voltar para o Brasil depois de 30 anos?
Não dava para beber vinho daqui. Hoje o cenário é de alta qualidade.
E o terreno deixado para trás naquela época?
Estamos pensando em recuperá-lo. Com a documentação em mãos, faremos uma parceria com a Miolo.
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