A modernização de um clássico português Como a atual geração de herdeiros da casa José Maria da Fonseca renovou o Periquita, a mais popular marca de Portugal, com novos vinhos, rótulos e garrafas
por Luciano Suassuna, de Vila Nogueira de Azeitão (Portugal)
Numa mudança sutil, o Periquita Clássico ganhou aromas mais suaves e ficou mais redondo porque prolongou o estágio em barricas de carvalho francês. Ele continua a ser produzido integralmente com uvas Castelão e ainda repousa durante três meses em barris de mogno, antes de seguir para as barricas francesas. “O mogno do Brasil melhora o vinho, mas não transmite nem aromas, nem sabor”, explica Sofia. Para os apreciadores de vinho, as maiores novidades, contudo, foram os lançamentos recentes. Em 2006, chegou ao mercado a amarronzada garrafa do Periquita Branco, feito com duas uvas típicas de Portugal, a Arinto e a Moscatel de Setúbal. É leve e aromático, recomendado como aperitivo ou com saladas, peixes e frutos do mar. No ano seguinte, foi a vez do Periquita Reserva, que leva 30% de Touriga Nacional e 20% de Touriga Franca, além da Castelão, e oferece mais corpo e complexidade que o Clássico. Mesmo com os altos impostos brasileiros, tem uma ótima relação de qualidade e preço. No ano passado, foi a vez do rosado, feito com uma mistura de Castelão, Aragonês e Trincadeira. Como o branco, o Periquita Rosé acompanha saladas, mariscos e peixes. Vem numa garrafa transparente para valorizar a cor do vinho. Toda a série do Periquita teve seus rótulos modernizados. “Meu tio adora inventar coisas”, diz Sofia, se referindo ao enólogo da JMF, Domingos Soares da Silva, o homem por trás da revolução do vinho de mesa mais popular de Portugal.
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O vinho que enfrenta maré braba
O grande tesouro líquido da José Maria da Fonseca está protegido por duas portas de ferro presas por um cadeado. Ao fundo da Adega dos Teares Novos, onde mulheres costuravam uniformes para as tropas portuguesas combaterem os franceses durante as invasões napoleônicas do início do século 19, duas tampas de barricas pregadas à parede informam as safras do Moscatel de Setúbal ali depositadas. De 1900 até hoje, faltam apenas cinco anos. O de 1901 por causa da filoxera, os de 1936 e 1937 por causa de outras pragas no vinhedo e os de 1939 e 1940 por conta da Segunda Guerra Mundial. De cada safra, guarda-se um casco e 60 garrafas e apenas os donos podem retirar alguma amostra de lá.
Transformada em catedral do Moscatel, a Adega dos Teares Novos é um gigantesco galpão no qual 400 mil litros envelhecem em barris de carvalho, ao som de cantos gregorianos, sob uma iluminação tênue. Teias de aranha crescem naturalmente pelo ambiente – as aranhas fazem parte do combate biológico a pragas que poderiam estragar a lenta evolução do produto.
O Moscatel de Setúbal é um vinho de sobremesa capaz de atravessar décadas sem perder a qualidade. Uma garrafa de um Moscatel 20 anos tem majoritariamente vinhos que envelheceram por duas décadas e outras partes com 30 anos e até 40 anos de idade. “Mas nunca haverá na mistura uma parte com menos de 20 anos”, diz Sofia Soares Franco, da JMF. Desta adega sai também um parente próximo, de produção limitada, chamado Moscatel Roxo, grande especialidade da José Maria da Fonseca
Como os vinhos generosos do Porto e da Ilha da Madeira, o Moscatel é forte o suficiente para enfrentar sol, calor, umidade, maresia e oxidação. Barris do Moscatel de Setúbal atravessaram oceanos e mares bravios a bordo de caravelas e navios a vapor. A cada porto, constatou-se que o vinho ficava mais espesso e mais doce. Nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, a José Maria da Fonseca colocou alguns barris de Moscatel e Moscatel Roxo a bordo do Sagres, uma caravela que serve de navioescola à marinha portuguesa. Batizado de “tornaviagem”, ele retornou ainda melhor a Portugal. A pequena produção colocada à venda foi rapidamente esgotada e hoje o torna-viagem chega a ser vendido em leilões especializados por 2 mil euros a garrafa.
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Tampa de barrica informa as safras de Moscatel (acima) e vinhedos de José Maria da Fonseca |
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O começo
A histórica garrafa da safra de 1880, quando começou a operar a primeira máquina de engarrafamento em série do Periquita. Até então, os vinhos eram vendidos a granel, muitas vezes transportado em bornais, as bolsas de couro que modificavam aromas e comprometiam a qualidade. |
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Um Clássico
Produzido desde 1850, o Periquita Clássico é o vinho europeu mais consumido no Brasil. Feito apenas com a Castelão, estagia em barris de mogno brasileiro antes de ser passado para o carvalho francês e, em seguida, colocado no mercado. |
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A sobrevivência
A uva Castelão plantada na Cova da Periquita mostrou boa resistência à praga da filoxera, que dizimou os vinhedos da Europa na virada do século 19 para o 20. Rótulos e garrafas foram se modernizando para atender às mudanças de mercado. |
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O Rosado
Um vinho frutado, com aromas que lembram cerejas e framboesas, foi lançado no último verão europeu. Vai bem como vinho de piscina, aquele desfrutado como aperitivo em tardes quentes. E à mesa casa com saladas, mariscos e peixes. |
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O Reserva
Em razão da composição feita com 30% de Touriga Nacional e 20% de Touriga Franca, além da Castelão, e também por conta do estágio de oito meses em madeira nova e usada, o Reserva oferece mais corpo e complexidade que o Periquita Clássico. |
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O Branco
Lançado em 2006, tem boa acidez e aromas cítricos, graças à mistura das uvas Arinto e Moscatel de Setúbal. Recomendado como aperitivo, é par perfeito para pratos leves, como saladas e peixes. |
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Moscatel de Setúbal
Sob o nome da uva típica da região, a JMF produz uma coleção de rótulos. São vinhos doces, com Denominação de Origem Controlada reconhecida desde 1907. O Alambre 20 anos é uma mistura de colheitas antigas, a mais jovem com 20 anos de guarda. |
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