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Edição 126

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Home: Revista: Estante Maio/2009

Estante
Cristiana Couto

Cozinha colonial

Partindo do (louvável) objetivo de recuperar o que se comia no Brasil após a chegada dos portugueses, a doutora em literatura portuguesa Sheila Moura Hue, autora de Delícias do Descobrimento - a gastronomia brasileira no século 16, entra numa seara pouco conhecida. Não só pela escassez de registros que revelam os hábitos do Brasil Colônia. Mas pelo fato de entrar no campo da história, fora de sua especialidade, e cometer alguns equívocos. O primeiro deles está no título: a rigor, o termo gastronomia, forjado no final do século 18, não se aplica à alimentação do período. O segundo tem relação com as receitas: um dos compêndios culinários que "ilustram" a cozinha brasileira do século 16 é português, dirigido a uma classe social abastada e escrito quase 200 anos depois do Descobrimento. Além disso, a aparente obrigatoriedade de incluir receitas em livros de cozinha histórica parece exigir, também, que elas sejam adaptadas para irem parar na panela moderna. O resultado são receitas desconectadas do conteúdo do livro que, de resto, compila deliciosas descrições que refletem o olhar estrangeiro (e seus "pré" conceitos) sobre a alimentação da nova Colônia, compiladas numa ordem singular, à moda dos tratados descritivos da época.

Delícias do Descobrimento - Sheila Moura Hue - Zahar (208 págs.) - R$ 34

Boa mesa oficial

Foram anos de pesquisa em cerca de 6,5 milhões de documentos do Itamaraty. O resultado está em A mesa e a diplomacia brasileira - o pão e o vinho da concórdia, de autoria do enófilo Carlos Cabral, que trata dos banquetes e jantares oficiais oferecidos pela Presidência da República. Um universo da boa mesa e de protocolos bastante complexos, por trabalhar com interesses diversos e, principalmente, de Estado. "O anfitrião e o convidado são cúmplices, muitas vezes, de algo que não agrada a nenhum dos dois", escreve o autor. A partir do nascimento do Palácio do Itamaraty, na década de 1850 no Rio de Janeiro, e do Palácio dos Arcos, de Brasília, para onde o Ministério das Relações Exteriores foi transferido em 1970, Cabral desdobra os diversos estágios, itens e regras que compõem o cerimonial do Estado, como o delicado trabalho de manejo de lugares e posições durante um banquete, as minuciosas instruções dos jantares oficiais (que não podem ultrapassar 50 minutos), as louças e utensílios reservados a esses eventos e, claro, a seleção de vinhos servidos nessas ocasiões. São preciosas as fotos dos jantares com diversas autoridades, bem como os desenhos da montagem das mesas e os cardápios - estes, aliás, mereciam imagens maiores, que permitissem a leitura.

A mesa e a diplomacia brasileira - Carlos Cabral - Editora de Cultura (263 págs.) - R$ 90

Síntese gastronômica

É tarefa difícil compilar, numa só obra, a alimentação de vários povos nas mais variadas épocas. Gastronomia no Brasil e no mundo tenta dar uma pincelada em tema tão abrangente e complexo. Para isso, se apoia em uma vasta bibliografia, cria um vocabulário no final da obra e trata de cozinhas não ocidentais, como a do império árabe, e de civilizações anteriores à colonização europeia, como as que floresciam no México ou no Peru. Mas uma tentativa de síntese faz com que processos históricos complexos (como o lento surgimento de uma nova culinária francesa a partir do século 16) sejam reduzidos a eventos pontuais, de curta duração e globais.

Gastronomia no Brasil e no mundo - Guta Chaves e Dolores Freixa - Senac São Paulo (304 págs.) - R$ 55

foto: Bruno Carvalho



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