Adega As lições de uma degustação vertical
Suzana Barelli
As lições de uma degustação vertical
O vinho é a bebida alcoólica que mais nuances de aromas, sabores e estilos apresenta a cada safra. Por mais que a tecnologia, principalmente nos países do chamado Novo Mundo vinícola, consiga reduzir, e muito, as variações entre as safras, nunca um ano é igual ao outro. O clima, em anos com mais chuva, em outros com mais sol, é o principal responsável por estas mudanças – em 2003, de verão quentíssimo na Europa por exemplo, resultou em brancos e tintos alcoólicos, mais prontos para beber quando jovens e muitos com menor capacidade de envelhecimento. Mas há outros fatores como o estilo que o enólogo quer dar à bebida naquela safra, o envelhecimento do vinhedo, cada ano mais velho e com uvas mais concentradas, e o amadurecimento do vinho, agora na garrafa.
Todas estas questões se revelam numa degustação vertical – quando diversas safras de um mesmo vinho são provadas na sequência. Várias destas degustações aconteceram em São Paulo neste último mês e permitiram descobrir a história de cada tinto, agora na taça.
O Lote 43 da Miolo
O italiano Giuseppe Miolo recebeu o lote de número 43 para cultivar quando imigrou para a Serra Gaúcha, em 1897. A homenagem a este pedaço de terra, que marca o começo da vinícola, veio quando seus descendentes lançaram o primeiro vinho premium da Miolo. Elaborado apenas em anos especiais, o Lote 43 é um corte de Cabernet Sauvignon e Merlot, que envelhece em barricas novas de carvalho americano. A degustação, realizada durante o evento Laboratório Paladar de Cozinha Brasileira, contou com quatro safras: 1999 (o primeiro ano em que este vinho foi elaborado), 2002, 2004 e 2005.
Nas taças, dois estilos bem claros – as duas primeiras são tintos mais rústicos, com pouca fruta e notas mais animais. São, também, vinhos que pedem comida para acompanhá-los. A do 1999, ainda, dava sinais de que o vinho não tem mais o que evoluir em garrafa daqui para a frente. Nas duas últimas, uma mudança de estilo – o Lote se tornou um tinto mais moderno, com bons aromas de fruta madura e taninos mais bem resolvidos. Vale lembrar que, desde 2003, a Miolo conta com a consultoria do francês Michel Rolland na elaboração de seus vinhos.
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