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Home: Revista: Vinhos Agosto/2009

A uva branca da Argentina
Se a Malbec brilha entre as tintas, é a Torrontés a aposta de variedade branca entre as vinícolas do país

por Beatriz Marques, de Mendoza, Argentina

Bodega e Estância Colomé, nos pés da Cordilheira dos Andes
Vinhedos de Torrontés em Salta, da Terrazas

A Malbec é quase sinônimo de uva argentina. De origem francesa, a variedade se adaptou muito bem aos vinhedos do país e dá origem aos grandes tintos locais. Mas, se depender dos viticultores, em breve uma nova cepa, agora branca, também carregará a bandeira azul e branca com orgulho. Trata-se da Torrontés, ainda pouco conhecida no Brasil, mas que vem conquistando espaço com um vinho aromático, de bom frescor.

"Ainda vamos ouvir falar muito da Torrontés", aposta o enólogo Hervé Birnie-Scott, diretor operacional das vinícolas argentinas Terrazas de los Andes e Cheval des Andes. A Terrazas é a mais nova vinícola a apostar nesta cepa. Entra no time formado por bodegas como Colomé, San Pedro de Yacochuya, Etchart, Félix Lavaque, Dominio del Plata, entre outras, do lado argentino, e da Pisano, no Uruguai. Sua estreia, no Brasil, será em novembro deste ano, com o Reserva Torrontés 2008 - a primeira safra foi feita em 2007, mas não chegou por aqui.

Para o novo projeto, a Terrazas comprou um terreno em Cafayate, na região de Salta, a noroeste da Argentina, e plantou Torrontés em parte dos seus dois mil hectares, a 1.700 metros de altura do nível do mar. Depois de colhida, a uva segue em caminhões refrigerados para Mendoza, onde é vinificada. A produção ainda é pequena: em 2008, foram elaboradas apenas 30 mil garrafas. "Não esperamos retorno financeiro imediato. Acreditamos na mensagem de uma autêntica uva branca argentina", diz Birnie-Scott.

Os novos vinhedos da Terrazas estão na área em que esta uva tem melhor se adaptado. Ela fica no noroeste do país, aos pés da Cordilheira dos Andes, a mais de 1.500 metros do nível do mar e com grande amplitude térmica - a diferença de temperatura entre o dia e a noite que favorece o lento e complexo desenvolvimento da uva.

Cafayate, ainda, tem um solo mais úmido do que as demais regiões vinícolas do país. Esta umidade, explica Birnie-Scott, garante uma vinha com boa folhagem, capaz de proteger a uva do sol excessivo dos Andes. "Este terroir é ideal para ter vinhos aromáticos, frescos e balanceados", defende o enólogo Thibaut Delmotte, da Colomé. Seu Torrontés nasce de uvas plantadas em vinhedos de altitude de Cafayate (a 1.700 metros), Angastaco (a 2 mil metros) e de Colomé (a 2.300 metros), todos nesta região de Salta.

A Torrontés não se parece com sua homônima espanhola e provavelmente nasceu do cruzamento da Moscato de Alexandria com a argentina Criolla Chica. A uva também é plantada em Mendoza, San Juan e La Rioja, na Argentina, nas variedades riojano (mais aromática e difundida), sanjuanino (de média intensidade) e mendocino (menos aromática).

No vizinho Uruguai, a Torrontés riojana é cultivada na região de Canelones. "O resultado é um branco com aromas mais florais, enquanto na Argentina os vinhos são mais frutados", acredita Fabiana Bracco, gerente de exportação da uruguaia Pisano.

Além de encontrar um bom terroir, o sucesso da Torrontés se deve aos avanços da tecnologia. No passado, seu vinho era marcado por um amargor pronunciado. "Hoje, é um branco mais fino, não tão rústico como três décadas atrás", explica Juan Carlos Mosca, enólogo da Bodegas Etchart.

Entre os processos de elaboração, agora a uva recém-chegada à vinícola passa por uma maceração pelicular de poucas horas, quando a casca fica em contato com o suco, antes de ser prensada. Isso resulta em uma bebida mais aromática. Sua fermentação também é mais longa, cerca de um mês, em baixas e controladas temperaturas.

"As mudanças permitem desenvolver aromas mais elegantes", diz Delmotte. O enólogo José Luis Mounier, da vinícola Félix Lavaque, ainda, lembra: "é uma uva única, que não é elaborada em nenhum outro lugar do mundo." Estas mudanças mostram que o futuro da Torrontés está garantido. Além dos brancos secos, a cepa faz sucesso com uma versão de sobremesa e também com um espumante, este em desenvolvimento pela Pisano.

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