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Home: Revista: Romeu e Julieta Agosto/2009

Pinotage
Fora do circuito da alta gastronomia de São Paulo, restaurante aposta em menu moderno, mas derrapa nas criações do chef

fotos divulgação
O badejo ao limão siciliano, com arroz negro e cogumelos, um dos destaques do cardápio

Foi somente na segunda tentativa que conseguimos, Julieta e eu, Romeu, jantar no Pinotage, o restaurante de cozinha contemporânea que foi aberto recentemente na zona oeste paulistana. Na primeira vez, uma quarta-feira à noite, batemos com a cara na porta. Foi uma ou duas semanas depois de termos lido a notícia de sua inauguração nas colunas sociais (uma das sócias é a relaçõespúblicas Alicinha Cavalcanti), e descobrimos ao chegar que o Pinotage ainda não abria todos os dias da semana.

Nesta segunda vez, fizemos reserva antes para conhecer um restaurante que se propõe a servir uma comida mais sofisticada fora do eixo dos Jardins-Itaim, regiões que concentram estas casas em São Paulo.

Ao entrar no ambiente de decoração moderna, só tínhamos uma certeza: iríamos pedir um vinho feito com Pinotage, a uva-símbolo da África do Sul. Julieta estava curiosa - ela já tinha achado ousado uma casa escolher como nome de batismo uma uva polêmica, amada ou odiada até pelos enólogos sul-africanos. E, leigos talvez, esperávamos que a maioria dos pratos do cardápio harmonizasse com este estilo de vinho. Não foi bem assim.

Na carta, apenas cinco rótulos com Pinotage e fui escolher justo um que não tinha em estoque. Gentilmente, o maître me sugeriu um Shiraz, do mesmo país. Mas queríamos um Pinotage e escolhi o Stellenzicht 2006, um tinto frutado e um tanto rústico, mas, sem dúvida, diferente. Custou R$ 108 (na importadora, sai por R$ 78).

No alto, o crème brûlée de café e o chef Patrick Bolle; no centro, a fachada e detalhe do salão do restaurante

A escolha dos pratos foi mais fácil. A maioria deles trazia uma pitada de modernidade, indicando uma cozinha criativa do chef Patrick Bolle. Na entrada, Julieta escolheu o queijo de cabra crocante com agridoce de jiló e coulis de pimentão (R$ 21) e eu, um carpaccio tataki, com a carne marinada com shoyu, vinagre de arroz, saquê, wasabi e gengibre (R$ 18). Minha parceira se deu melhor na escolha: sua entrada cativava com um queijo de cabra de qualidade e o inusitado jiló, enquanto o meu carpaccio mais lembrava um rosbife e a combinação de ingredientes orientais mostrou-se desequilibrada.

No prato principal, a situação se inverteu: Julieta se encantou com um badejo ao limão siciliano, com arroz negro e cogumelos (R$ 64), de descrição deliciosa e bons comentários do maître. Mas, na mesa, servido em uma louça mais rococó, era uma confusão de sabores destoantes. O meu carré de cordeiro com cuscuz marroquino (R$ 62) estava perfeito, pena que a gelatina de menta de acompanhamento lembrasse mais um corante, num verde-escuro, e pouco agregasse à carne.

O descolamento entre o enunciado do cardápio e a sua realização continuou na sobremesa - o crème brûlée de café e cardamomo parecia uma boa reinterpretação da clássica receita, mas na primeira garfada também se mostrava confuso de sabor. Ao pagar a (cara) conta, Julieta fez o seu comentário final. É um restaurante que quer ser moderno. Mas querer nem sempre é poder.

Nesta crítica de restaurante, Romeu e Julieta, um casal anônimo e especialista na arte de comer bem, avalia uma casa de destaque no cenário gastronômico brasileiro. Escolhemos um homem e uma mulher por acreditar que eles e elas costumam ter sensações diferentes à mesa.

 



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