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Home: Revista: Vinhos Agosto/2009

O vinho secreto de US$ 100
Sem divulgar quais são as suas uvas, a Miolo lança o Sesmarias, criado para ser o tinto mais nobre e caro do Brasil

por Ana Clara Costa, de Bento Gonçalves

Vinhedo em Candiota, fronteira com o Uruguai, onde estão plantadas as variedades de uvas que darão origem ao Sesmarias

Mistério. Essa é a palavra que cerca o Sesmarias, nova aposta da Miolo na tentativa de criar seu grande vinho. O tinto foi apresentado ao público no dia 4 de julho, na sede da vinícola em Bento Gonçalves (RS), após uma sequência de degustações de outros produtos da casa. Precisamente às 15h30, depois de uma série de Merlots, Cabernets Sauvignons, Shiraz e Chardonnays provados ao longo do dia, o primeiro vinho brasileiro no valor aproximado de US$ 100 chegou às taças dos convidados.

O enólogo francês Michel Rolland, coanfitrião da tarde, junto com Adriano Miolo, diretor-técnico da empresa, fez o corte simbólico (quando se definem quais serão as uvas e a sua porcentagem no vinho final) do tinto na presença de todos. As castas? "Não podemos dizer", brincou Rolland, consultor da Miolo desde 2003, sobre as uvas escolhidas para formar a bebida.

E não disseram. Sabe-se que são seis variedades de uvas cultivadas nos vinhedos da Fortaleza do Seival, localizados em Candiota, ao sul do Estado, quase fronteira com o Uruguai. E o plantio foi iniciado há nove anos. Após a degustação, não se ouviram comentários que desmerecessem a qualidade do vinho. Mesmo sem ainda ter passado pelas barricas de carvalho, o Sesmarias agradou. "Ainda não está finalizado, mas já se pode ter uma noção de como ele ficará após o envelhecimento em carvalho", afirmou Rolland. Segundo o célebre enólogo, o vinho atingirá sua melhor forma entre dez ou 12 anos após ser engarrafado. "Será sem dúvida o melhor vinho brasileiro", apostou. Mas valerá o Sesmarias os US$ 100?

Apesar de todo o segredo em torno das uvas utilizadas na composição do vinho, especula-se que sejam as seguintes castas: Cabernet Sauvignon, Merlot, Touriga Nacional, Tempranillo, Petit Verdot e Tannat. Mas esses são apenas palpites curiosos dos que querem entender as minúcias do tal grande vinho brasileiro. Nada foi confirmado. O máximo que Adriano Miolo informou é que serão pré-selecionadas anualmente dez variedades de uvas das 14 plantadas em Candiota. Dessas, serão escolhidas as seis que entrarão no chamado corte do vinho. "Mas sem perder as características principais e o conceito do Sesmarias", disse Miolo.

Michel Rolland (à esq.) e Adriano Miolo, na apresentação do vinho premium da vinícola

O processo de fermentação utilizado é o mesmo dos châteaux da região de Bordeaux, berço de Michel Rolland. Trata-se de um processo apelidado de fermentação integral, na qual as uvas são selecionadas na colheita e fermentadas inteiras nas barricas de carvalho por uma semana, a uma temperatura controlada de 28 graus. O envelhecimento de um ano será feito a partir de agora no carvalho francês, e depois o Sesmarias ficará por mais 12 meses repousando em garrafas.

Este processo mostra o cuidado na vinícola com o novo vinho. Somente nos últimos dez anos, foram gastos R$ 120 milhões na aquisição de terras, importação de mudas, pesquisa e tecnologia para elevar o nível de produção da vinícola. Somente na Fortaleza do Seival, os investimentos foram de R$ 40 milhões.

No entanto, os vinhos mais caros que a vinícola havia produzido até então não chegavam a R$ 100, como o Lote 43 e o Merlot Terroir, ambos com uvas da Serra Gaúcha, região quase 500 quilômetros ao norte dos vinhedos de Candiota. Por isso, é possível questionar se um salto de mais de 100% no preço da garrafa corresponde a 100% de melhora na qualidade do vinho. "É um ótimo vinho. Potente, frutado, com boa acidez, bem elegante. Foi uma surpresa, mas eu achei caro", afirma Arthur Azevedo, vice-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers em São Paulo, um dos presentes na degustação.

Nessa primeira safra, serão produzidas pouco mais que quatro mil garrafas, que começaram a ser vendidas por encomenda, ou "en primeur", como os entendidos do assunto gostam de chamar. Nesse sistema, o comprador geralmente paga 40% do preço do vinho na hora da encomenda e 60% quando a bebida for entregue.

A chegada do primeiro lote será somente a partir de março de 2010. "Como se trata de uma produção pequena, mesmo sendo caro, o vinho deve vender", diz Azevedo. Se essa estimativa se concretizar, não há dúvida de que novas safras virão. Quem sabe até, ao final de alguns anos, Michel Rolland decida mostrá-las ao genioso crítico norte-americano Robert Parker (leia entrevista na página 70), que é seu amigo.

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