Na xícara
Grãos com personalidade Isabela Raposeiras
Lamento quase diariamente a impossibilidade de torrarmos no Brasil os cafés produzidos no Exterior. As torrefações brasileiras não podem comprar sacas de café cru provenientes de outros países, apenas adquirir grãos já torrados. O inconveniente é que o café chega aqui com sua validade para consumo muito reduzida, especialmente após passar por todos os trâmites da alfândega.
Os impostos que incidem sobre o café torrado importado também inviabilizam a comercialização contínua destes grãos no varejo de cafeterias do País. Explico por que lamento: assim como nos vinhos, há características sensoriais que encontramos apenas em cafés cujas variedades e terroir estão presentes em outros países.
Por outro lado, tenho certeza de que há muito a ser descoberto em matéria de variedade sensorial aqui mesmo, pois o consumo de qualidade no mercado interno ainda engatinha: tem pouco mais de uma década. Descobri recentemente dois grãos que representam a riqueza de terroir e a inventividade de manejo dos produtores brasileiros.
Um deles é da variedade Catuaí Vermelho, produzido em Araponga, Minas Gerais. Os produtores despolparam este café de uma forma peculiar e bastante arriscada para os altos níveis de umidade da região. Também usaram um terreiro suspenso (tipo de "cama") no alto da montanha, em que o café teve alto nível de ventilação durante todo o processo de secagem.
O resultado foi alta complexidade aromática, corpo aveludado e doçura muito acentuada. As notas de casca de lima-da-pérsia combinadas com figo deram elegância a este potente café.
O segundo vem de Lagoa Formosa, no Cerrado Mineiro. Recebi uma amostra de Mundo Novo, variedade que nunca me encantou especialmente. Talvez a expectativa baixa possa ter contribuído para a primeira surpresa, mas as notas de frutas do cerrado, como cambuci, aliadas a uma finalização que lembra os mais elegantes tipos de mel, ficaram presentes em todas as degustações que fizemos. Aroma de castanha-de-baru também pôde ser percebido no método espresso. Por algum tempo, minha frustração de não poder tomar um café queniano ou indiano será substituída pela descoberta destas maravilhas que só os cafeicultores mais amorosos e determinados podem produzir.
Estou bebendo o café Eurídice, da Fazenda Sertãozinho. Floral, doce e de corpo leve, apresenta a típica acidez frutada e cítrica do sul de Minas, que o deixa brilhante e fresco, ideal para um excelente começo de dia. (R$ 9,50, embalagem com 250 g do café moído)
Isabela Raposeiras, barista, é proprietária da Academia de Barismo, ministra cursos e dá consultorias na área. isabela.colab@revistamenu.com.br
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