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Home: Revista: Reportagens Outubro/2009

Dos 7 aos 22 graus
Teste mostra como a temperatura influi, e muito, na apreciação dos aromas e sabores de espumantes, brancos e tintos

por Suzana Barelli fotos Marcos Mendes

fotos Marcos Mendes
Os termômetros de garrafa e de mercúrio e o sommelier Manuel Luz

O aquecimento global mudou uma das mais tradicionais máximas do mundo do vinho, aquela de que os tintos devem ser provados a temperatura ambiente. Está certo que essa não é mais uma verdade absoluta: o ambiente, na regra acima, é o clima ameno do outono europeu, já não tão previsível e estável assim. Os grandes tintos, sabe-se hoje, têm sua plenitude de aromas e sabores quando apreciados a 17oC ou 18oC, por exemplo, o que é muito distante da temperatura ambiente brasileira. Mas o fato é que a temperatura influi, e muito, na percepção desta bebida. Quando quente demais, é capaz de tornar adocicado e alcoólico um fortificado Porto; gelado em excesso, mascara os defeitos de qualquer vinho e, aos 14oC, deixa sublime um Borgonha branco.

Ao menos é o que pregam a literatura de Baco e todas as tabelas que indicam com quantos graus cada garrafa deve ser servida. Para testá-la na prática, Menu convidou o sommelier Manuel Luz, consultor da Wine. com.br, empresa de comércio eletrônico de vinhos, e um apaixonado pelos temas físicoquímico dos brancos e tintos. Junto com a equipe da revista, Luz colocou à prova quatro rótulos: um espumante rosado, um branco, um tinto e um Porto. E, como se trata de uma degustação didática, o local escolhido foi a sala de aula da Escola Wilma Kövesi de Cozinha, em São Paulo.

As quatro garrafas foram, inicialmente, geladas em balde de gelo com água. E, para calibrar os termômetros, Luz deu a primeira dica para quem quer conferir a temperatura: os medidores que abraçam a garrafa marcam a temperatura do vidro, e não do líquido que está dentro. Para a precisão dos graus Celsius, o melhor são os termômetros de mercúrio ou os digitais. E confira na página 68 uma explicação sobre o tempo médio para gelar uma garrafa em balde de gelo. Aos vinhos:

fotos Marcos Mendes
Os termômetros de garrafa e de mercúrio e o sommelier Manuel Luz

 

fotos Marcos Mendes

Termômetro calibrado
As tabelas de temperatura indicam servir espumantes e brancos mais gelados do que os tintos. A temperatura baixa favorece o frescor, um atrativo dos espumantes, brancos e vinhos de sobremesa - aqui, a acidez tem de estar bem balanceada com a doçura, para a bebida não ficar enjoativa. Nos graus, a regra básica é que, quanto mais complexo for o vinho, menos frio ele deve ser apreciado. Assim, um espumante deve chegar à taça entre 6oC e 8oC, enquanto um champanhe safrado pede alguns graus a mais para revelar sua elegância. Tintos ligeiros devem ser servidos entre 14oC e 16oC e os grandes Bordeaux pedem 18oC. Em geral, as temperaturas são:

6oC a 8oC - espumantes
8oC a 10oC - brancos secos, suaves e de sobremesa
10oC a 12oC - brancos mais secos,
espumantes safrados, vinhos rosés
12oC a 14oC - grandes brancos
14oC a 16oC - tintos de corpo ligeiro
16oC a 18oC - tintos envelhecidos,
de médio corpo e vinhos do Porto
18oC - tintos ricos em taninos, Porto Vintage

O espumante rosé, que começou a ser degustado a 7ºC
 

 

Espumante
A temperatura de serviço indicada para um espumante varia entre 6oC e 8oC, a mesma dos vinhos de sobremesa. E foi a 7oC que o Nocturno Brut Rosé começou a ser degustado. Na taça, borbulhas pequenas e abundantes deste vinho ligeiro elaborado em Mendoza, na Argentina, com a uva tinta Bonarda, e que tem 11,5% de teor alcoólico. No nariz, notas de frutas vermelhas, como cereja e framboesa. Na boca, um agradável frescor (a melhor característica deste rosado) e final curto.

Aos 10oC, o vinho começou a mudar. As notas de frutas vermelhas continuavam, mas o frescor desaparecia e, em seu lugar, surgia um leve amargor, não percebido na temperatura correta. Aos 17oC, o espumante rosado estava totalmente desequilibrado, restando algumas notas de cereja. Aos 22oC, apenas a bela cor se destacava. Na taça de degustação, o espumante foi o vinho que esquentou mais rapidamente, na comparação com os demais. "O gás carbônico das borbulhas faz a temperatura se elevar mais rápido", explica Luz.

fotos Marcos Mendes

 

fotos Marcos Mendes

Vinho branco
Brancos, como este Sauvignon Blanc Ventorela 2008, devem ser apreciados entre 10oC e 12oC. A explicação está na acidez, que dá vida a este estilo de bebida. Quando quente, ela aparece de forma desagradável. Se frio demais, o vinho quase não revela os seus aromas e, na boca, fica um líquido gelado. Servido a 7oC, o Sauvignon Blanc logo fez a taça ficar embaçada, impedindo a apreciação de sua cor, e percebem-se apenas algumas notas cítricas, lembrando limão.

Aos 10oC, este branco elaborado no vale de Leyda (no Chile) apresentou maior riqueza aromática, com notas de maracujá e florais se somando ao cítrico (limão), sensação confirmada no paladar. O frescor ganhou força. Aos 17oC, o vinho se mostrou cansado: as notas de frutas davam a sensação de estarem mais adocicadas. Aos 22oC, o frescor desapareceu por completo, sobrando apenas as notas cítricas e um álcool evidente, substituindo a fruta por uma sensação de queimação na língua.

 

Vinho tinto
Diz a regra que tintos mais estruturados, como este português Cartuxa Colheita 2005, devem ser servidos entre 16oC e 18oC. Mais quente, os taninos se destacam demais, tornando a bebida desagradável e, mais frio, a acidez fica mais evidente e perde-se a sua riqueza aromática. A prova começou com o tinto a 7oC, medidos no termômetro de mercúrio. O primeiro problema da baixa temperatura foi a taça que, suada, não permitiu a apreciação da cor, nem saber se o vinho é límpido ou se tem borras e deveria ser decantado. Também é difícil identificar seus aromas, com o vinho "fechado", na linguagem técnica, com muita percepção da madeira. Talvez notas de ameixas pretas. E, na boca, revelou-se muito tânico e com acidez agressiva.

Aos 12oC, o cenário era outro. Os aromas de frutas vermelhas começavam a aparecer, confirmando a impressão de ameixa. E o vinho dava as primeiras pistas de ser mais amigável em boca, com taninos macios. Aos 16oC, o tinto encantou: boa fruta (ameixa fresca) e notas de café. Na boca, mais redondo e untuoso, com boa acidez e álcool bem dosado (tem 13,5% de teor alcoólico). Esta sensação se manteve até os 20oC, com leve perda no equilíbrio da bebida, mas o tinto ainda tinha forças para acompanhar a refeição. Aos 22oC, a impressão foi de que a acidez começou a ser substituída pelo álcool, tornando o tinto desequilibrado.

fotos Marcos Mendes

 

fotos Marcos Mendes

Vinho do Porto
No balde de gelo, foi preciso esperar mais tempo (infelizmente não cronometrado) do que as demais garrafas para o vinho chegar aos 7oC iniciais. A explicação é que sua garrafa é mais grossa quando comparada com um tinto seco e tranquilo. Nesta temperatura, o Burmester Tawny, com seus 20% de teor alcoólico, mais parecia um licor, com aromas balsâmicos, noz-moscada e figos, remetendo a algo doce. Na boca, apareceu um inesperado amargor para um vinho doce.

Aos 11oC, o Porto começou a mostrar seu potencial. Notas de frutas vermelhas, como morango e groselha, começaram a aparecer no nariz, junto com o figo evidente, e o amargor diminuiu; na boca, a sensação de muita doçura ainda se fez presente. Aos 15oC (o correto é provar um Porto entre 14oC e 16oC) o amargor tinha desaparecido e notas de amêndoas vieram se juntar às de frutas vermelhas, já identificadas na temperatura mais baixa, e algo de baunilha. Na boca, belo equilíbrio e persistência longa. Aos 22oC, o Porto se mostrou alcoólico e desequilibrado, com notas de frutas vermelhas já passadas.

 

Cronômetro no gelo

O balde de gelo é um dos recursos mais utilizadas para gelar uma garrafa. Mas o cálculo de quanto tempo cada vinho deve ficar no gelo para atingir a sua temperatura ideal depende de diversas variáveis, como a temperatura ambiente e a do próprio gelo, a quantidade de líquido em cada garrafa e no balde, entre outras. O físico Cláudio Furukawa, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, calculou o tempo aproximado dos quatro vinhos degustados acima, pressupondo que a temperatura ambiente era de 25oC, que o gelo estava a zero grau (quando começa a derreter) e que as garrafas estavam totalmente imersas e estáticas no gelo. "A temperatura na parte superior da garrafa é sempre maior do que na parte inferior e devemos considerar a média das temperaturas", explica o físico.

O resultado é que o espumante precisa em torno de 25 minutos para chegar aos 7oC; O vinho branco, de 11 minutos para chegar a 11oC. No tinto, o tempo estimado pelo físico é de 6 minutos para abaixar dos 25oC aos 17oC. No Porto, o resfriamento leva 10 minutos, em média. Furukawa alerta que são tempos aproximados. O conselho do sommelier Manuel Luz é também ter bom senso. Logo no primeiro gole, é possível perceber se ela está muito gelada ou quente e voltar ou não a garrafa ao balde. Recomenda-se, ainda, servir a bebida sempre mais gelada do que o recomendado na tabela, pois ela sempre esquenta na taça.

fotos Marcos Mendes


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